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"Quanto a Brecht, a relação da Cia.Ocamorana é de filiação estrita"
 
        Iná Camargo Costa

A Cia. Ocamorana foi organizada em função de um projeto que, a meu ver, ainda continua em vigor. Numa primeira etapa, a ideia era trabalhar com peças da tradição do teatro épico para desenvolver um conjunto de referências tanto para os integrantes dos elencos quanto para o público que porventura se interessasse pelos temas e formas experimentados. E numa segunda etapa – que ainda está em andamento – desenvolver experimentos com dramaturgia própria.

A primeira foi cumprida com dois textos: A máquina de somar, de Elmer Rice e As aventuras de Maria Malazartes, de Chico de Assis. Voltarei a este ponto em seguida. Por razões que outros integrantes podem desenvolver melhor que eu, passamos a produzir nossos próprios textos a partir da Guerra dos caloteiros. Os projetos seguintes se desenvolveram em diálogo com a primeira etapa, especialmente porque o grupo passou a dialogar mais profundamente com a tradição do teatro documental – iniciada por Piscator e que tem em Peter Weiss a mais conhecida referência – num momento em que eu mesma já estava me afastando para a retaguarda onde me encontro hoje.

 

Dito isto, acho que a contribuição da Cia. Ocamorana é similar à de outros grupos conscientemente vinculados à tradição do teatro épico e consiste em ampliar o repertório da cena paulista, mostrando que temos importantes antepassados no Brasil e no mundo (distanciando a mania de restringir o teatro épico a Brecht) e mostrar que com esta linguagem o teatro ainda tem muito o que dizer sobre a luta de classes em suas várias manifestações.

 

A máquina de somar é muito importante para a memória da Cia. Ocamorana. Mas comecemos pelo título. Uma tradução ao pé da letra seria A máquina de calcular, mas eu e o Márcio Boaro (que traduziu comigo o texto de Elmer Rice) achamos que a alusão à regra geral da acumulação (somar) daria um enquadramento mais óbvio aos problemas do personagem Zero, cujo pesadelo é o assunto da peça. Em segundo lugar, por ser um texto – obra-prima do expressionismo americano – totalmente ignorado pelo teatro brasileiro (assim como o expressionismo de um modo geral), achamos que seria oportuno introduzir esta informação no Brasil. No meu caso particular, ainda se tratava de mostrar que o teatro expressionista dos anos vinte já está conscientemente no campo formal do teatro épico. É claro que esperávamos que esta discussão se desenvolvesse mais amplamente, mas isto não aconteceu. Minha avaliação é que o teatro brasileiro continua ignorando como sempre estas informações.

 

As aventuras de Maria Malazartes foi um momento muito importante para a consolidação do grupo, pois correspondeu à adesão de Chico de Assis ao projeto. Digamos que, por uma série de razões conjunturais, nada menos que um dos fundadores do CPC resolveu dar-lhe o seu aval. O grupo deu sequência à sua ideia de inicialmente apresentar textos inéditos da tradição épica em nossos palcos (pois a ditadura havia inviabilizado a produção da Maria Malazartes nos anos 60) com duas vantagens inestimáveis: a direção foi do próprio Chico de Assis e seu texto tem óbvios vínculos com a experiência do CPC. Não posso desenvolver o aspecto “ensaios” com o Chico de Assis porque nunca participei dos bastidores de nenhuma das produções, mas acredito que os integrantes aprenderam um milhão de coisas com o nosso então diretor e dramaturgo.

 

Com A guerra dos caloteiros já começamos a fazer teatro documentário. Fizemos uma ampla pesquisa sobre a invasão holandesa no Brasil, tanto no plano histórico quanto no plano literário. O resultado foi um espetáculo que misturava cenas criadas a partir de personagens inventados com cenificação de textos de inúmeros autores pesquisados, que iam de Gilberto Freyre a Castro Alves e o próprio Chico de Assis que escreveu, também nos anos 60, um texto sobre Maurício de Nassau.

 

O passo seguinte consistiu justamente em buscar referências sobre este tipo de trabalho teatral – o documentário. Não demorou muito para o grupo se interessar especialmente por Peter Weiss, pois ele é uma síntese preciosa – e consequentemente muito fértil – de toda a tradição que começou com o agitprop soviético. Para não ir muito longe, basta pensar nas infinitas possibilidades abertas pelo teatro jornal, jornal falado, teatro vivo e tantos outros nomes usados mundo afora para designar esta modalidade que consiste em pesquisar um assunto e apresentá-lo cenicamente usando todo tipo de linguagem, tanto a propriamente teatral quanto as demais formas de expressão ainda não reconhecidas como legítimas em cena. Isso aparece no trabalho de Peter Weiss, que se apresenta expressamente como discípulo de Piscator.

 

Quanto a Brecht, a relação da Cia.Ocamorana é de filiação estrita. Isto é: desde a sua formação original, quando nem tinha esse nome, Brecht sempre foi o autor (dramaturgo e teórico) mais lido, debatido e estudado pelo grupo. Por isso mesmo, desde A guerra dos caloteiros, o Márcio sempre procura adaptar para os textos da companhia pequenas teses, inúmeras técnicas textuais brechtianas e assim por diante, mas sem nunca fazer alarde. Trata-se daquilo que chamamos apropriação: nós nos apropriamos dos experimentos de Brecht, buscando criar seus equivalentes para o repertório brasileiro.

"Que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio?"  Bertolt Brecht

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